LAURO DE FREITASPOLÊMICA

Do confronto ao colo: A perigosa relação dos blogueiros na política laurofretense

A aparente reconciliação entre o novo governo e blogueiros da oposição revela uma prática que pode custar caro à administração pública e à democracia local.

As eleições municipais, por mais acirradas que sejam, costumam demarcar dois campos claros: de um lado, o governo eleito, com seu projeto e sua equipe; do outro, a oposição, com o papel crítico e fiscalizador. Em Lauro de Freitas, no entanto, essa linha acaba sendo apagada com uma velocidade e uma cordialidade que causam estranheza e levantam questões profundas sobre o caráter da nossa política local.

Créditos LF News

Após a vitória nas urnas, era de se esperar que a nova gestão formasse seu núcleo de comunicação com base na coerência e no alinhamento programático. Esperava-se também que os blogueiros e influenciadores digitais que, durante a campanha, foram ferrenhos opositores, assumissem seu papel de crítica – um papel legítimo e necessário em qualquer democracia.

O que se vê, porém, é um “costume” . Blogueiros que até ontem lançavam acusações graves, que mobilizavam seguidores contra os agora eleitos, são recebidos de braços abertos nos gabinetes da prefeitura. Reuniões sorridentes, acesso privilegiado a informações, uma súbita trégua nas publicações críticas. A promiscuidade é evidente. O que mudou da noite para o dia? O projeto da cidade ou as conveniências particulares?

Essa prática tem um nome e um preço. Chama-se clientelismo. O preço é a erosão da credibilidade de ambos. O governo, ao buscar se aliar a oposição através do afago e, muitas vezes, de repasses de verbas públicas disfarçados em publicidade oficial ou “serviços prestados”, não está sendo pragmático. Está sendo ingênuo e perigosamente curto-prazista.

Créditos LF News

É como trazer “cobras peçonhentas” para dentro de casa. Hoje, elas podem estar quietas, alimentadas pelos ovos de verbas públicas. Mas sua natureza não mudou. A qualquer momento, por um novo interesse, uma negociação mais vantajosa ou uma simples mudança de vento político, o veneno pode ser direcionado novamente contra quem as acolheu. A lealdade comprada é a mais frágil e volátil de todas.

A consequência imediata é a desmoralização do debate público. A população, que acompanhou meses de embates, fica perplexa ao ver antigos críticos transformados em bajuladores silenciosos ou em defensores remunerados. A sensação é de que tudo não passou de um teatro e que os princípios e as denúncias eram meras moedas de troca.

Além disso, o governo eleito se enfraquece. Em vez de construir uma base sólida de apoio, fundamentada em resultados e comunicação transparente com a sociedade, opta pelo atalho perigoso da barganha. Gasta recursos públicos para neutralizar vozes que deveria enfrentar com argumentos e obras. E, pior, abre mão de contratar e valorizar profissionais verdadeiramente alinhados com seu projeto, que trabalhariam com convicção, não por conveniência momentânea.

Não é preciso ir longe para ver o preço desse jogo perigoso. Neste exato momento, a frágil cortina de seda que separava o governo de um de seus novos “aliados” digitais já se rasgou. Um dos blogueiros que, há poucas semanas, era recebido com sorrisos nos gabinetes — e que, não esqueçamos, foi candidato e pediu votos para a oposição — agora se revolta e ataca de maneira muito preocupante.

Seus alvos são diretos: o esposo da prefeita e a própria estrutura de poder municipal. As acusações são graves: enriquecimento ilícito e cobrança de propina em contratos públicos.

Aqui se revela, de forma crua, o ciclo tóxico da conveniência: quem é comprado por oportunismo, trai por oportunismo. A “cobra peçonhenta”. E a mordida é venenosa, intoxicando não apenas a imagem dos acusados, mas a já combalida confiança da população na política local.

Este episódio serve como alerta final — não apenas para esta gestão, mas para todas que pensam que podem domesticar a crítica através do fisiologismo. O atalho do afago a opositores revela-se um desvio perigoso, que leva a cidade a um beco sem saída: de um lado, um governo fragilizado por suspeitas; de outro, uma “mídia local” cuja credibilidade foi trocada por acesso efêmero.

Quem paga a conta, sempre, é a cidade.

Lauro de Freitas merece mais. Merece governo e oposição com integridade, e um jornalismo local que não se venda, mas que cumpra seu papel: informar, fiscalizar e servir à sociedade — e não aos interesses de gabinete.

A lição está dada. Resta saber se será aprendida.

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