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Wall Street Journal vê vitória de Lula como revés para o Brasil e alerta para crise fiscal

O jornal norte-americano The Wall Street Journal publicou um editorial com críticas à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Sob o título “Os mercados não votam em Lula”, o conselho editorial atribuiu a queda das ações brasileiras, a desvalorização do real e a turbulência no mercado de títulos públicos à vitória do petista sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), no segundo turno das eleições presidenciais deste domingo, 25.

Lula venceu com 51,8% dos votos, contra 48,2% de Flávio, que havia liderado o primeiro turno. De acordo com o jornal, o resultado surpreendeu os investidores e interrompeu uma sequência de vitórias eleitorais da direita em países latino-americanos nos últimos três anos.

A reação do mercado financeiro ocupa parte central do editorial. O principal índice da bolsa brasileira caiu 10% na abertura das negociações desta segunda-feira, o que provocou a suspensão temporária das operações. Depois da retomada, as perdas aumentaram, e o índice encerrou o pregão com recuo de quase 14%.

Os recibos de ações da Petrobras negociados no exterior, conhecidos como ADRs, perderam 14%, enquanto os do Itaú Unibanco recuaram 20%. O fundo de índice iShares MSCI Brazil (EWZ), que acompanha o desempenho de ações brasileiras, caiu 19,4%. O real perdeu 8,7% do valor em relação ao dólar. O Tesouro Nacional também cancelou os leilões de títulos públicos previstos para a semana.

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Reeleição de Lula pode acionar circuit breaker na Bolsa de Valores, mostra estudo - Foto: Divulgação
Reeleição de Lula pode acionar circuit breaker na Bolsa de Valores, mostra estudo – Foto: Divulgação

Para o conselho editorial do WSJ, a reação dos investidores está relacionada às perspectivas fiscais do país e à continuidade da política econômica de Lula, que assumirá o quarto mandato presidencial em janeiro de 2027.

O jornal descreve uma economia de US$ 2,6 trilhões que enfrenta dificuldades para crescer e preservar o poder de compra da população. O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro avançou 2,3% em 2025 e, segundo as projeções citadas no editorial, poderá registrar expansão inferior a 2% em 2026.

A publicação considera esse ritmo insuficiente para reduzir a pobreza e critica os resultados econômicos acumulados durante os governos do Partido dos Trabalhadores. A legenda ocupou a Presidência da República por quase 18 dos últimos 24 anos. Nesse intervalo, 14 países ultrapassaram o Brasil em PIB per capita. Entre os exemplos mencionados estão República Dominicana, Guiana e Tailândia.

A preocupação com as contas públicas

A situação fiscal brasileira recebe críticas severas. O WSJ associa a permanência de Lula no poder ao aumento dos gastos governamentais depois do primeiro turno e afirma que o déficit fiscal deverá encerrar 2026 próximo de 10% do PIB.

De acordo com os números apresentados, os déficits brasileiros ultrapassaram 8% do PIB em cada um dos últimos quatro anos. A dívida pública, por sua vez, supera 82% do PIB e mantém trajetória de crescimento.

O jornal também relaciona a política fiscal à manutenção dos juros elevados. A taxa básica está em 13,75%, patamar que o editorial atribui à necessidade de conter pressões inflacionárias provocadas pelo desequilíbrio das contas públicas.

Foto: Montagem Revista Oeste/Gerada por IA

Com juros elevados, aumentam as despesas do governo para financiar a dívida. O editorial argumenta que esse mecanismo agrava os déficits e exige novos ajustes, em uma economia que ainda guarda a memória da hiperinflação brasileira da década de 1990, quando a alta dos preços chegou a superar 1.000% ao ano.

O WSJ cita uma avaliação do Goldman Sachs divulgada na semana anterior à eleição. Conforme o banco norte-americano, um ajuste fiscal é “urgentemente necessário”.

O conselho editorial considera que a correção das contas públicas poderá impor medidas dolorosas à população e ao governo. A responsabilidade por conduzir esse processo ficará com Lula, reeleito para administrar os problemas econômicos da própria gestão.

STF sob suspeita

As críticas ultrapassam a política econômica. O Wall Street Journal também questiona a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) e afirma que decisões tomadas durante o processo eleitoral favoreceram o presidente reeleito.

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O episódio destacado envolve o ministro Cristiano Zanin, que foi advogado de Lula antes de assumir uma cadeira no Supremo. O magistrado determinou, no domingo da eleição, a prorrogação da votação por duas horas, atendendo a um pedido da campanha petista. A decisão acabou posteriormente acatada pela Justiça Eleitoral.

A publicação também acusa o Supremo de exercer o poder de maneira arbitrária e afirma que a composição da Corte favorece o presidente. Na avaliação do jornal, a atuação dos ministros provoca insegurança institucional, percebida pelos investidores.

Futuras indicações ao Supremo

Apesar da vitória presidencial do PT, o Wall Street Journal observa que a oposição conquistou resultados favoráveis nas disputas estaduais e legislativas.

Segundo a publicação, candidatos oposicionistas tiveram desempenho satisfatório nas eleições para governador, enquanto o Partido Liberal deverá controlar a maioria das cadeiras nas duas Casas do Congresso Nacional.

Outra preocupação mencionada envolve a composição futura do Supremo Tribunal Federal. Ao longo dos próximos quatro anos, Lula poderá indicar até quatro novos ministros para a Corte. O jornal considera que essas nomeações poderão ampliar a influência do presidente sobre o tribunal.

A publicação também demonstra ceticismo quanto à disposição do Senado de exercer o papel de fiscalização institucional sobre o Supremo, apesar da composição parlamentar favorável à oposição.

O texto termina atribuindo aos mercados financeiros a capacidade de impor restrições ao governo diante do que considera falhas dos mecanismos institucionais brasileiros. Para o conselho editorial do Wall Street Journal, a queda dos ativos brasileiros nesta segunda-feira representou uma manifestação antecipada de desconfiança dos investidores em relação ao quarto mandato de Lula.

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